
"Matar!" (On Killing) do Tenente-Coronel Dave Grossman
No universo da estratégia e do combate, existe uma fronteira que muitos evitam olhar: a barreira psicológica do ato de tirar uma vida.
O Tenente-Coronel Dave Grossman, em sua obra seminal “Matar! Um estudo sobre o ato de matar e o preço cobrado do combatente e da sociedade”, não apenas olha para essa fronteira, mas a desseca com a precisão de um cirurgião de campo.
Para nós, que vivemos e respiramos a Doutrina Warfare, este livro não é apenas uma leitura; é um manual de sobrevivência psíquica e eficiência operacional.
Dave Grossman é um oficial de infantaria e paraquedista do Exército dos Estados Unidos com vasta experiência em liderança militar. Serviu como professor de psicologia em West Point e é um estudioso reconhecido no campo da agressão humana e crimes violentos. A obra foi escrita a partir de pesquisas conduzidas ao longo de cinco anos, fundamentadas na história militar, psicologia e sociologia.
A Grande Mentira e a Barreira Inata
A história militar, muitas vezes escrita por românticos ou burocratas de gabinete, perpetuou o mito do “matador natural”. Acreditava-se que, uma vez colocado em combate, qualquer homem treinado dispararia sua arma com a intenção de destruir o inimigo. Grossman estilhaça essa ilusão com dados que chocam os desavisados: na Segunda Guerra Mundial, apenas 15% a 20% dos soldados da infantaria de linha de frente dispararam suas armas contra o inimigo.
O que isso nos diz? Diz que existe uma resistência inata no ser humano em matar o seu semelhante. Sob a ótica da Guerra de Manobra, isso representa o maior “atrito” (friction) possível. De nada serve a melhor logística, o armamento mais avançado ou o plano tático mais brilhante se o seu Centro de Gravidade — o soldado — hesita no momento decisivo.

O Ciclo OODA e o Condicionamento de Reflexo
A evolução do treinamento militar pós-Segunda Guerra Mundial foi, em essência, uma tentativa de contornar essa resistência. Os militares entenderam que o soldado não falhava por falta de coragem, mas por um bloqueio cerebral. A solução? O Condicionamento Operante.
Substituíram-se alvos de papel estáticos por silhuetas humanas realistas que “caem” ao serem atingidas. O objetivo é criar um reflexo condicionado. No calor da batalha, o combatente não deve “decidir” atirar; ele deve “reagir” ao estímulo. Isso encurta drasticamente o Ciclo OODA (Observação, Orientação, Decisão, Ação). Ao automatizar a Ação, retira-se o peso da Decisão do córtex cerebral (racional) e transfere-se para o mesencéfalo (primitivo).
O resultado foi uma letalidade que saltou para mais de 90% na Guerra do Vietnã. Mas a Doutrina Warfare nos ensina que toda ação gera uma reação. Esse aumento de eficiência teve um custo: o trauma psicológico pós-combate.
A Anatomia do Matar: Distância e Responsabilidade
Grossman categoriza a resistência ao ato de matar baseando-se na distância física e emocional.
- Longa Distância: Artilharia, bombardeio aéreo. Aqui, o inimigo é um ponto no radar. A resistência é mínima.
- Média Distância: Combate com fuzis. A barreira começa a se erguer. Você vê o rosto, vê o movimento.
- Curta Distância: Combate corpo a corpo, facas, baionetas. É o nível mais alto de resistência e o que causa o trauma mais profundo.
Para a nossa doutrina, entender essas distâncias é vital para o posicionamento de tropas e para o preparo psicológico. O “atrito” aumenta exponencialmente à medida que a distância diminui.

O Peso do Trauma: A Baixa Psiquiátrica
Um dos pontos mais sombrios da obra é a análise da fadiga de combate. Grossman afirma que, após 60 dias de combate contínuo, 98% dos soldados sofrerão algum colapso psiquiátrico. E os outros 2%? Segundo o autor, são aqueles que já possuíam tendências psicopatas antes mesmo da guerra.
Para o comandante visionário, isso significa que a gestão do esforço e o rodízio de tropas não são luxos, são necessidades táticas. Ignorar a saúde mental do guerreiro é condenar sua unidade à ineficiência a longo prazo. O passado nos ensina: soldados exaustos não manobram, apenas sobrevivem — ou sucumbem.
A Perspectiva Visionária: O Condicionamento na Sociedade Civil
Grossman encerra sua obra com um alerta que ressoa fortemente hoje. As técnicas de condicionamento usadas para tornar soldados mais letais (dessensibilização e reflexo operante) estão presentes de forma descontrolada na cultura de entretenimento moderna.
Enquanto no exército o “ato de matar” é cercado de disciplina, hierarquia e um propósito moral (o ethos do guerreiro), na sociedade civil esse condicionamento ocorre sem filtros. Como defensores de uma visão tradicional e de valores sólidos, devemos entender que a violência sem propósito e sem disciplina é o oposto da Doutrina Warfare. O guerreiro mata para proteger; o condicionado mata por reflexo ou impulso.

O Ethos do Guerreiro Moderno
“Matar!” é um livro desconfortável porque é verdadeiro. Ele nos obriga a encarar a nossa própria natureza. Para a Warfare, a lição é clara:
- A eficiência tática exige treinamento realista e reflexo rápido.
- A liderança exige a compreensão do fardo psicológico do subordinado.
- A vitória real não é apenas derrotar o inimigo, mas trazer o guerreiro de volta com sua humanidade preservada.
Se queremos ser visionários, precisamos honrar o passado e as cicatrizes daqueles que vieram antes. O ato de matar é o peso mais pesado que um homem pode carregar. Preparar-se para ele é a obrigação de todo aquele que escolhe o caminho do herói.
Guerra é atrito. O combate é humano. E o conhecimento é a nossa arma mais letal.

A Trindade da Sociedade: Ovelhas, Lobos e Cães Pastores
Dentro da análise de Grossman, nenhuma definição é tão poderosa e visceral quanto a divisão da humanidade em três categorias distintas. Para a Doutrina Warfare, essa não é apenas uma metáfora; é uma régua moral que separa o cidadão comum do verdadeiro guerreiro.
1. As Ovelhas: A Grande Maioria
A maioria das pessoas na sociedade é composta por “ovelhas”. Isso não é pejorativo, é um fato biológico e social. Elas são gentis, produtivas e incapazes de ferir umas às outras voluntariamente. Vivem em uma negação confortável, acreditando que o mal não cruzará seu caminho. No entanto, a ovelha não tem dentes nem garras; ela depende da ordem para prosperar. Quando o atrito da realidade — o lobo — surge, a ovelha entra em pânico, pois não foi treinada para o caos.
2. Os Lobos: O Predador Maligno
Os lobos representam o mal encarnado. São os criminosos, os sociopatas, aqueles que se alimentam da fraqueza da ovelha sem hesitação. O lobo não possui a resistência inata ao ato de matar; pelo contrário, ele encontra poder na destruição. Na visão tradicionalista, o lobo é a anomalia que deve ser combatida sem tréguas, pois ele ignora as regras da civilização.
3. Os Cães Pastores: O Ethos do Guerreiro
Aqui reside o núcleo da nossa marca. O “cão pastor” é uma criatura rara. Ele tem dentes e garras como o lobo; ele é capaz de uma violência letal e técnica. No entanto, ele possui algo que o lobo jamais terá: empatia e senso de dever. O cão pastor ama o rebanho e, por isso, vive na fronteira, vigiando o horizonte.
Para Grossman, ser um cão pastor é uma escolha de vida que exige o preço do isolamento. Muitas vezes, a ovelha olha para o cão pastor com desconfiança, pois ele a faz lembrar que o lobo existe. Mas, quando o ataque acontece, é para o cão pastor que todos correm. Na Warfare, nós não fabricamos apenas equipamentos; nós equipamos o cão pastor para que, no momento da verdade, suas garras sejam mais afiadas que as do lobo.

O Peso de Ser o Cão Pastor
O livro deixa claro: o cão pastor carrega um fardo duplo. Ele deve manter sua capacidade letal (a técnica do lobo) enquanto preserva seu coração humano (a essência da ovelha). O treinamento de alta performance — como o que defendemos — serve para garantir que o cão pastor não se torne um lobo por acidente, perdendo-se no abismo da violência, nem uma ovelha por negligência, tornando-se inútil quando o conflito estoura.
Essa distinção é o que separa o “mercenário” do “guerreiro”. O guerreiro é o cão pastor que entende a Intenção do Comandante: proteger a vida e a ordem através do domínio magistral da força.




